sexta-feira, 25 de abril de 2008

sábado, 19 de abril de 2008

pronunciar

“... estendo as mãos ao futuro na ânsia de o alcançar... revejo-me nele como se fosse hoje o que estou a viver... mas depressa caio em mim e sei que estou a sonhar... nada mais que um breve sorriso e um beijo nuns lábios sedosos, como mel que ainda escorre na minha pele... um doce desejo de voltar a sentir esse doce desejo de abraçar-te num voltear de dança parada na imagem do momento ali focada... num sentir que nada se sente para além do amor que existe mesmo e não nos mente... lateja nas nossas faces de rosadas que se tornam da loucura que nos invade e das mãos que se movem na procura... cabeças que se tocam e se enlaçam em cabelos revoltos misturados com os dedos que os afagam... e os braços remetidos à sua função de prender ali, naquele momento, a eternidade do abraço... e os olhos se olham, se miram e sorriem enquanto os lábios se molham no mel de um beijo prolongado, húmido, molhado, doce doçura de tanta candura e desejo... e a boca de vez em quando entreaberta para pronunciar a palavra certa, a palavra aguardada, descoberta, límpida de tudo e do nada pela simplicidade da verdade que existe quando se pronuncia o quanto se ama, o quanto nos preenche e nos invade a Alma...”

terça-feira, 15 de abril de 2008

brilho

domingo, 13 de abril de 2008

fome nua

"...circula na net uma petição a favor da condenação de um artista plástico (chamar-lhe-ía besta quadrada) pela exposição que já realizou onde permitiu a morte de um cão à fome e à sede ali assim em presença de quem passava e via... ninguém reagiu, nem as pessoas, nem as autoridades, ninguém... prepara-se agora para nova "demonstração" chamando-lhe arte... as pessoas movimentam-se em acções para que ele não o faça o que acho muito bem... mas, como posso eu assinar uma petição a favor de um animal se os animais somos nós, todos nós, que não nos movemos, que não fazemos nada perante o quadro que se nos depara no dia a dia sobre o nosso irmão, o ser humano que à luz do dia, à luz do Mundo cruel em que vivemos, assiste impávido e sereno, à sua morte... a crueza da imagem dá-nos a dimensão da petição que deveríamos assinar contra os chamados senhores da guerra que gastam biliões em armas que tão bem poderiam ser gastos em pão... lamento, mas não consigo assinar essa petição por muito asco que tenha desse pseudo artista sem alma..."

quarta-feira, 9 de abril de 2008

incondicionalmente

“… tivesse eu as capacidades de um deus, mesmo dos da antiguidade, de um Zeus, de um Júpiter ou mesmo de um Marte ou até mesmo, porque não, duma Diana… tivesse eu os poderes de tudo demonstrar sem ter de provar, ou seja, bastar ser e não ter de provar que sou o que sou ou quem sou… tivesse eu toda essa força mágica e logo seria a mais pura prova do que há muito persigo: seria o Amor transformado em entrega, seria o Amor pleno, aquele que vive de si mesmo para se bastar e na totalidade se entregar… o Amor que deixaria de o ser para passar ao patamar superior do estatuto da fórmula única da vida plena que é Amar… passamos tempos e tempos sem sabermos o que é isso do Amor ou como é que se Ama e um dia, sem sabermos como, tudo surge ali, à nossa frente, sereno, demonstrativo da nossa anterior ignorância e dizendo-nos bem no nosso interior que o Amor está aqui dentro de cada um de nós e, como tal, livre de ser entregue ao próximo… e é nesse momento, quando o Amor sai de dentro de nós e o entregamos a alguém que ele se transforma numa dádiva e assim, de uma forma tão simples, passamos a Amar… esta entrega, esta forma de se estar na vida, pressupõe a inexistência de condições incluindo o não retorno, ou seja, amar mesmo que não nos amem… essa é a única forma de provar a nós mesmos que estamos a Amar e não tão pobremente apenas a gostar… é por isso que estou sempre a falar do mesmo, a batalhar todo o tempo na tentativa de demonstrar, sem ter de provar, que Amar é a minha forma de ser… tentar provar que se ama é uma forma de se negar a si mesmo porque quem ama não precisa de se afirmar: entrega-se, apenas… entrego-me a ti nas mais pequeninas coisas, mesmo até nos elementos que não são visíveis mas que existem, que estão lá, em ti, vindas de mim… entrego-me a ti sem perder a minha identidade, sem deixar de ser eu mesmo mas o que sou o transmito, o envio, o entrego em totalidade… entrego-me a ti em serenidade, em luz, em paz, em harmonia, com força, com garra, com espírito e alegria… entrego-me a ti num sorriso, num toque, numa palavra, numa frase… entrego-me a ti num beijo, num corpo, numa alma, com a totalidade do meu eu… entrego-me a ti tal como sou, impuro talvez, mas com doçura, em humildade e sem qualquer altivez… entrego-me a ti por amor…”

quinta-feira, 3 de abril de 2008

o meu caminho

“… interrogamo-nos a todo o momento sobre o porquê de certo facto que nos surge ou nos acontece… indagamo-nos sobre o seu possível significado ou sobre o que, porventura, possa querer dizer ou, na maior parte das vezes, de nada valerem ou terem o desejo de serem mensagens ou sussurros do nosso consciente ou mesmo, quiçá, do nosso subconsciente… mas existem factores aleatórios (e outros não) que nos passam pela vida, pela nossa frente, ao nosso lado e não os vemos, nem os sentimos ou apenas não lhe damos valor… e, como se costuma dizer depois: aconteceu porque tinha de acontecer… verdade, talvez… talvez, na verdade, as coisas aconteçam porque têm mesmo de acontecer… o karma, o destino, o fado, sei lá que mais, tantas e tantas desculpas para não aceitarmos que as coisas estão ali ao nosso lado ou à nossa frente porque apenas e tão só fazem parte de nós mesmos… ou, por outro lado, nós fazemos parte delas, num só Ser, num só Estar, numa só Unidade… o mesmo se passa com o Amor ou com o Amar (coisas diferentes, como já o tenho dito várias vezes)… ele, o Amor ou ele o acto de Amar, estão presentes no nosso dia a dia, ao nosso lado, à nossa frente e, tantas e tantas vezes não o vemos (ou não o queremos ver)… então, se se estiver atento, sentimos a presença dele, do Amor porque mesmo que não perto de nós, não ao nosso lado ou nem à nossa frente, o Amor está connosco, dentro de nós… e é ele que, saindo de dentro de nós se transforma na mais pura forma de se estar na vida que é Amar… é esse estado que eu vivo a todo o momento, é por isso que o sinto dentro de mim, que o tento dar-te num gesto, numa palavra, num ouvir-te, num toque, numa forma qualquer que te faça saber que o meu Amor existe, que é puro e que é a única forma que tenho de viver… vivo para Amar, para te amar porque esse é o meu caminho para o teu amor por mim…”

segunda-feira, 31 de março de 2008

banalidades

“… como se costuma dizer, durmo como uma pedra… seja a que horas for que me deite, durma as horas que durma, o sono é sempre profundo e (adoro) recheado de sonhos… quanto mais pesados eles forem (os sonhos, tipo pesadelos) mais liberto me sinto quando acordo… por vezes, quando esporadicamente acordo a meio da noite para aliviar a bexiga, retomo o sono de imediato e, muitas vezes o mesmo sonho… tenho imensos sonhos recorrentes, como por exemplo, sonho imenso com pessoas já falecidas nomeadamente o meu pai (tantas vezes presente nos meus sonhos que até julgo que ele está ali mesmo a dar-me instruções para o dia seguinte)… em resumo, gosto imenso de sonhar e nunca acordo cansado como ouço muitas pessoas dizerem que foi uma noite terrível, vira para ali vira para aqui e que sonhos horríveis, etc… não, adoro sonhar e sinto-me bem… acordo, invariavelmente, à mesma hora e levanto-me, quase sempre, também à mesma hora… hoje acordei, como de costume mas senti uma leve pressão na testa… como tenho o medidor da tensão arterial sempre à mão (desde que tive o avc que mantenho um cuidado com a mesma), medi e o aparelho debitou um valor de 178 – 119 com 101 pulsações, ou seja, mais simples: 18/12… um valor destes logo de manhã assustou-me e imaginei que o aparelho estivesse avariado… a meio da manhã pedi um outro aparelho a um vizinho e o valor estava basicamente na mesma: 17/11… decidi e fui até à praia apanhar o ar frio que vinha do norte… almocei e, como de costume, fui fazer a minha sestinha… quando acordei, medi de novo e os valores mantinham níveis elevados: 16/10… levantei-me e rumei ao Posto Médico… cheguei e, por milagre, fui logo atendido no balcão para a inscrição… na sala de espera apenas uma doente à minha frente… não esperei muito e de imediato me encontrei sentado frente a uma médica… exposto o problema e o historial clínico, a mesma entendeu que eu não estava bem com 16/11 ali tiradas por ela e que, portanto, precisava de medicação urgente para a regulação do problema… lá me deu a receita e uma guia de vigilância durante 6 semanas… de regresso a casa, aviei o dito cujo e pronto, aqui estou a escrever o texto que não sabia que iria escrecer mas que serve muito bem para ilustrar apenas um pouco do que foi o meu dia de hoje… a conclusão a tirar é que foi um dia tão simples, tão banal mas só eu sei a razão deste meu mal… (eu e algumas pessoas mais chegadas, claro…)… como vêem, um relato barato para um fim de mês de Março em que tanto durmo como faço…”

quarta-feira, 26 de março de 2008

momentos

“… existem momentos em que queremos tudo da mesma forma em que há momentos em que nos sentimos felizes com pequenos nadas… momentos em que desejamos que tudo nos envolva ou que tudo possamos abraçar… momentos em que um simples toque tudo pode significar… existem momentos em que desejamos tudo ter e momentos em que um simples beijo transforma todo o nosso ser… existem momentos em que tudo o que existe não nos chega e tudo queremos abarcar… e há momentos em que nos chega um simples olhar… há momentos que ansiamos possuir e momentos que nos satisfazem um terno sorrir… a vida ensina-nos que não interessa a quantidade do que queremos obter mas a qualidade que invade o nosso ser… essa qualidade pode vir de um simples gesto, de um meigo olhar, dum suave toque, dum abraço terno ou ainda duma simples risada, vinda do fundo da Alma, forte e dizendo-nos que a serenidade do riso nos acalma… a qualidade provém do sentir, do que nos faz sorrir e nos serena quando mesmo o temor nos abala… há momentos em que desejamos tudo como há momentos em que esse tudo está nos pequenos nadas que juntos, em aglomerado, nos fazem ver o quanto amamos e somos amados… beijo, feliz e sereno, todos esses pequenos nadas que me dás… entrego-te o meu ser total nos pequenos nadas que te dou... porque é assim que sentimos que o que temos é tudo o que tu és e tudo o que eu sou...”

sexta-feira, 14 de março de 2008

oferta

domingo, 9 de março de 2008

dentro de mim

“… trago-te dentro do meu peito escudada por ternos laços de afeição, de carinho e de paixão… trago-te no meu peito acolhida por todos os laços de serenidade e amor, num cabaz de tudo o que a paz nos pode tornar em seres felizes sem dor… trago-te no meu coração guardada em pétalas de azul celeste de douradas cores que ao longo dos tempos me deste… trago-te em ternuras embrulhada de coloridas sensações de tudo o que a tua presença me dá… trago-te dentro de mim ao sabor do que sinto que vive em ti e que pressinto saber-te dona do meu ser num estado de prazer, de tudo o que me é permito ter… trago-te dentro do meu coração, numa prece, ou oração, num saber que amar é o que te dou e o que recebo em troca numa deliciosa flor, seja ela qual for, mas que representa sempre e para sempre o presente de tudo o que me dás… tenho-te dentro de mim com serenidade e tudo o que representa amor em paz…”

terça-feira, 4 de março de 2008

apenas para ti

“… quisera escrever palavras que ainda não tivessem sido ditas ou escritas porque ainda não inventadas e dedicar-tas só para ti… dizer-te palavras diferentes de todas as que já foram ditas, escritas, reditas e reescritas… poder sentir que aquelas palavras eram só para ti e que mais ninguém as houvera lido ainda nem sequer sido sonhadas porque não inventadas nem rotuladas com significados óbvios… poder sentir que o destino delas era único e que mais ninguém se pudesse apropriar delas porque seriam apenas tuas… poder sentir que nada do que pudesse até então ter sido dito havia sido repetido… seriam palavras para escrever um livro onde nele descrevesse tudo o que estivesse na minha Alma e nunca houvera dela saído para o exterior… seriam sim claro, palavras de amor… mas essas existem em todo o lado, estão espalhadas pelo espaço de todos os pontos cardeais, em todos os cantos, dirigidas em todos os sentidos, conduzindo o Amor para a sua simplicidade ainda que indolor… seriam sim claro, palavras de ternura, de carinho, de afago, de candura, de puro desejo de as sorver num só trago e mais não existissem excepto no teu coração pois para ele elas haviam sido dirigidas… queria sim escrevê-las num só fôlego, num só dizer, num só escrever, numa só direcção e saber que as havias recebido, sentido e digerido dentro do teu ser… palavras escritas para mais ninguém as ler… só tu as receberias e as sentirias porque saberias que te pertenciam… queria, pois, inventar novas palavras que exprimissem o que já sabes sem eu as escrever porque tas digo ao ouvido, porque tas entrego no corpo, porque elas se entranham em ti vindas de mim, num crescendo de Amor sem palavras ditas ou escritas de cor, apenas sentidas pelo teu existir… dessa forma, não necessito de as inventar porque elas já existem dentro de ti quando as entendes no momento em que não as pronunciando, a ti somente as entrego… fico assim sem necessidade de as escrever porque elas mais não são do que o sentir em mim a força do âmago do teu ser…”

sábado, 1 de março de 2008

o meu derradeiro cigarro

“… tudo aconteceu num ápice, num momento normal da vida… era cerca do meio dia e meia hora do dia 18 de Abril do ano de 1988 e encontrava-me de pé encostado ao balcão do café do Luís a comer uma tosta mista e a beber uma cerveja… de repente, a minha vista esquerda deixou de ver… tapei o olho direito com a mão e apenas via um cinzento prateado e uma mancha escura para o lado esquerdo… calmamente, continuei a comer, comi mais um bolito e bebi o meu café… saí normalmente, segui para o meu escritório e fui lavar a cara e deitar água para a vista… mas nada aconteceu, tudo se manteve na mesma… a pé, dirigi-me para a Clínica Santo António, ali perto, entrei, segui até ao balcão e com uma calma tremenda disse à funcionária: - Desculpe, estou a perder a visão, estou a sentir-me mal e a entrar em pânico… por favor, vá transmitir isto ao Médico (por acaso, havia Oftalmologia e havia um em serviço àquela hora)… a moça, muito atónita a olhar para mim, lá se levantou da sua cadeira e seguiu em direcção ao gabinete clínico… quando regressou, um minuto depois, disse-me: - venha se faz favor que o senhor doutor atende-o já… depois de agradecer lá segui para a sala de espera… de dentro do gabinete saiu um doente e eu entrei de imediato… contei o que se estava a passar, fui bem examinado e o diagnóstico foi-me dado logo ali: - o senhor acaba de ter um AVC e precisa de ir imediatamente para a Neurologia. Aguarde um momento que eu vou ver se o meu colega está de serviço… ali fiquei a aguardar… a calma aparente obrigou-me a acender um cigarro, o último que fumei, seriam cerca das 15 horas desse dia… quando o oftalmologista regressou levou-me para o gabinete da neurologia onde o especialista me examinou e confirmou o diagnóstico anterior… passou-me um relatório e disse-me para ir ao Delegado de Saúde carimbar o chamado P1 para poder ir fazer de imediato um TAC… assim fiz… no dia seguinte, de manhã, obtido o documento segui para o Porto onde fiz o dito exame… deitei-me na bela marquesa do túnel do terror e surge um enfermeiro de seringa na mão… aí eu disse: - Um momento por favor: o que vai fazer?... ao que ele me explicou ir injectar-me o iodo para contraste e que iria sentir um ardor na cara que desceria pelo peito até às pernas e que desapareceria nos pés… (assim, na verdade, aconteceu) mais descansado, fiquei estático com a cabeça presa por uma fita e disseram-me para não me mover e olhar para uma luzinha vermelhinha que estava por cima da minha testa… e, pronto, ao fim de uns minutos, saí do túnel e mandaram-me esperar para ver o resultado… havia, na verdade, sofrido um pequeno acidente vascular cerebral provocado por arteriosclerose tabágica (durante 27 anos havia fumado 2 maços diários)… mandaram-me embora com a famosa receita da Aspirina 100 e que deveria ser seguido pela especialidade e fazer uns campos visuais de quando em vez… entretanto, a cegueira foi abrandando apesar de ter durado 33 horas… segui os conselhos e, nunca mais fumei… breve, no próximo mês, farei 20 anos sem tabaco… creio que foi uma vitória apesar de a ter conseguido por ter apanhado um dos maiores sustos da minha vida… e aqui acabei de contar a minha odisseia de como parei de fumar…”

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

a lenda do arvoredo castanho

“…não me vou lembrar concretamente dos pormenores exactos do evento, mas tentarei aproximar os mesmos, dentro da minha memória, à realidade de então… não consigo, pois, precisar a data, nem o ano nem o mês nem o dia nem a hora mas foi num tempo que passou por mim (ou que eu passei por ele, tempo…) em determinada altura da minha vida… recordo a imagem de tudo o que me rodeava e onde estava inserido: era um amplo descampado rodeado de árvores (uma espécie de clareira) castanhas com folhas castanhas (talvez, por esse pormenor, tivesse sido no Outono)… o chão estava repleto dessas mesmas folhas e o vento não existia… elas formavam portanto uma espécie de tapete fofo e convidativo ao mergulho no meio delas… a idade não me permitia aferir dos benefícios ou malefícios desse pseudo mergulho seco… mas a verdade é que, sem mergulhar, me deixei cair no chão sobre elas… uma enorme quantidade voou em meu redor como aves levantando voo… depois, lentamente, voltaram a descer não já sobre o mesmo lugar… algumas caíram sobre o meu corpo de menino, de criança, de inocente… deixei-me ficar ali por uns momentos olhando o céu azul, sem uma única nuvem… via-me numa espécie de poço com as árvores a servirem de parede do mesmo… por cima, a luz azul… não sei precisar a quantidade de tempo que ali estive mas recordo que adormeci e quando acordei estremeci de frio e vi que o céu já não estava azul… era já prisioneiro do cinzento avermelhado… levantei-me e nesse momento dei de caras com ele… era um homem velho, de costas curvadas com o peso de um molhe enorme de ramos de árvores… na mão direita segurava uma espécie de bengala, aquilo que, mais tarde, vim a saber chamar-se cajado… senti que não senti medo nem desatei a fugir, nem a gritar nem a chorar… aqueles olhos que me fixavam tinham um brilho diferente do que era do meu conhecimento… não reconheci naquele olhar um olhar humano mas apesar desse factor o olhar tinha um esplendor e resplandecia de luz… olhou-me, sorriu-me e estendeu-me a ponta do cajado como que querendo dizer ou perguntar quem eu era e o que fazia ali… como hipnotizado sei que me aproximei dele e toquei com a minha frágil mão na ponta desse pau… senti a rugosidade da madeira mas mantive ali a minha mão… não consigo explicar o que senti mas consigo visionar ainda o que se seguiu: da mão daquele velho saiu uma espécie de luz violeta que percorreu a vara, o cajado ou a bengala ou lá o que era e parou nos meus dedos e senti um suave calor no punho… nesse momento, retirei a mão e olhei para ela para ver o que se estava a passar: nada, a minha mão estava na mesma, não tinha nada que me pudesse ter preocupado… volvi, de novo, os olhos para o sítio em fronte de mim onde estaria o velho… nada estava lá… o vazio era total… aí, tive um frémito de medo e dei meia volta em direcção a casa… o caminho não estava alterado, tudo estava na mesma e quando cheguei a casa, nada de estranho deixei transparecer até porque minha mãe nada me disse: como se eu tivesse saído dali naquele momento e de novo voltasse para trás… dali a pouco senti o cheiro da sopa e lembro-me que naquela noite não consegui dormir… ainda hoje, a minha mão direita está sempre quente e não sei explicar a razão nem sei explicar se aquilo que está na minha memória se passou no real ou se foi um sonho mas por todos os elementos que ainda possuo, continuo crente que algo me tocou naquele fim de tarde, naquela clareira, de árvores castanhas com folhas castanhas espalhadas pelo chão…”

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

companheiro

“… chamava-se Ben-Hur… não tinha raça certa e era preto… hoje o meu Black faz-me lembrar um pouco esse meu primeiro cão… eu tinha na altura os meus 5 anos e me lembro muito bem dele… tinha a sua casota ao fundo do quintal junto aos galinheiros e ao pombal… (já naquele tempo o meu pai era columbófilo e de muito cedo a minha paixão pelos pombos se revelou que mais tarde, vim também a interessar-me pela modalidade)… servia de guarda mas de dia andava solto pelo quintal… já contei no meu antigo blogue algumas histórias do meu actual Black mas sobre este meu primeiro companheiro ainda não havia escrito algo sobre ele… quando os meus pais saíam de casa e eu tinha de ficar, ele o Ben Hur ficava comigo dentro de casa… então, inocentemente, brincava com ele e recordo que o seu corpo era maior que o meu… recordo que um dia a brincadeira me cansou e eu adormeci deitado no chão do corredor… ao meu lado o Ben Hur tinha-se deitado com a pata debaixo do meu pescoço e naquela posição ficara até os meus pais chegarem… acordei com o rosnar do bicho… meus pais queriam pegar em mim mas o cão não o permitia… talvez dentro dele se travasse uma batalha: a quem obedecer?... Ao dono, meu pai, ou defender a posição do seu fiel companheiro que era eu?... Recordo de me ter levantado e ao mesmo tempo ele se levantou também e se sacudiu, como é costume deles quando saiem da água, como para desentorpecer os músculos que deveriam estar exaustos da posição ora assumida… não tenho uma recordação muito fiel do olhar dele mas lembro-me do meu, dez anos depois quando ele morreu após prolongada doença e já cego não deixou de olhar para onde eu estava a ver os seus últimos momentos… não me via mas sentia-me… quando tombou o focinho preto no cimento do chão, os meus olhos não contiveram as lágrimas… e, sinceramente, não sei porque me lembrei hoje dele, aqui e agora… talvez porque o latido lá fora do meu actual Black me tenha feito recuar 50 anos no tempo e lembrar-me do meu primeiro cão…”

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

desnudo-me

“…vá, tirem-me tudo… eu me desnudo num gesto simples e urgente… tu e toda a gente… tirem-me tudo, tirem-me o corpo, a alma, o sorriso e a calma… tirem-me o juízo, a paz, a rectidão… tirem-me o siso, o beijo e o riso… tirem-me o sol e a lua… façam um longo rol… tirem-me tudo... eu me desnudo... tirem-me a pele, a voz, o coração... tirem-me as mágoas, as roupas e a saudade… tirem-me o peito, o respeito e a verdade… tirem-me o ontem, o hoje e o amanhã… tirem-me tudo mesmo que seja já... eu me desnudo… façam uma lista e de nada se esqueçam… façam revista… tirem-me tudo à chegada ou à partida... tirem-me tudo que eu me desnudo e à vossa disposição me ponho... mas, por favor, não me tirem o sonho...”

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

repetir vezes sem fim

“…sentei-me na minha cadeira de executivo (sim, tenho uma cadeira dessas aqui no canto onde me sento para me deliciar com as palavras que escrevo…) a fim de lançar para este ecrã mais umas quantas letras que formassem um texto (a pretexto de quê, não sei…) como tantos e tantos outros que ao longo da vida fui escrevendo… sim, já escrevo desde os meus 16 anos e desde o meu primeiro escrito até este momento, tudo tentei dizer, incluindo a mim mesmo, o que nem eu sabia que sabia ter cá dentro para o fazer… escrever, dá-me prazer, mas nem sempre sei o que dizer… muitas vezes as coisas que escrevo não fazem sentido no início da escrita mas ela vai-se desenvolvendo e, no fim, quando a fecho com as minhas habituais aspas, olho e fico feliz por ver mais um pouco de nada que faz parte de mim e aqui fica espelhada a alma de onde essas palavras saíram… muitas vezes o que digo não interessa mas não é isso que me move, ou seja, não procuro transmitir mensagens aos outros, sou um pouco mais egoísta e escrevo mais para mim do que para vós que me ledes… porém, não deixa de ser escrita, não deixa de ser algo que sai de mim, uma letra que seja e que tenha de ser dita… às vezes, tento dizer o que não sei e quando sei não consigo dizer… é o tal dilema de quem escreve e não sabe porque o faz… apenas porque lhe apraz… depois, versejo numa prosa despida de gosto porque a rima sai natural e, sem querer fazer mal, tento repetir o irrepetível, ou seja, tento dizer o que nunca foi dito mas, desdita minha, nunca o consigo… parece castigo (sem dor), apenas repito vezes sem fim o que sinto tão-somente dentro de mim… amor!...”

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

uma forma de escrita

"... coloco aspas e reticências... um hábito já muito antigo quando quero viajar pelas palavras nem que seja para vos desejar uma boa semana de trabalho... tento, dessa forma, pairar sobre elas na procura das letras que formem palavras... pairo sobre as vogais e as consoantes e demoro-me na procura das frases, das orações, dos pronomes, dos adjectivos, dos verbos e das verbalizações... concebo ainda a existência das vírgulas, dos pontos, de exclamações e por vezes coloco também uma ou outra interrogação... passo ainda pelos advérbios, pelas conjunções, pelos acentos circunflexos, agudos e em algumas vezes os graves... utilizo ainda as palavras que contenham hífen e quase nunca as que possuem tremas... dou uma olhadela pela possível utilização dos números ou dos algarismos, mas raramente... aproximo-me ainda dos galicismos ou de outras proveniências e tento, por ventura, fazer algum sentido com toda esta amálgama de fonemas, ditongos ou quem sabe ainda se também pelas amorfas e pelas átonas... o que quer que elas sejam, elas ficam aqui impressas num exercício renovado de prazer em as escrever e depois as ler... depois desta viagem, pouso a escrita com mais umas reticências e fecho a porta com mais umas aspas..."

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

usar o instinto

“…há sempre algo que nos impede de fazer o que achamos que não devemos fazer… como que, dentro de nós, houvesse uma espécie de censura que velasse pelas nossas acções… o que podemos e o que não podemos fazer é algo que, primeiro, vai à loja da censura e só depois segue para fabrico... a forma final do produto é que poderá ser diversa daquela que foi projectada... onde nos leva tal atitude?... que castração nos provoca semelhante sujeição?... porque não fazemos apenas o que nos apetece fazer?... o que é isso de consciência?... é uma espécie de balança com uma série de pratos onde são pesados todos os prós e os contras daquela acção planeada... porém, porque razão agimos de imediato, sem pensar, em momentos de crise duma forma a que chamamos de instinto?... ou será que mesmo antes de agir instintivamente, a loja da censura funciona mesmo sem darmos por isso?... será que há, na mesma, um pesar na balança?... saltamos de imediato para o lado para evitarmos ser atropelados por uma carro mesmo sem vermos que podemos cair na valeta cheia de água suja da sarjeta… fugimos rápidos, em caso de incêndio por exemplo, da varanda para a rua sem olharmos à altura que nos separa dela e sem pensarmos que podemos partir uma perna… porém, no dia a dia das nossas acções habituais de vida em que o instinto não é preciso, as nossas atitudes são “pesadas” antes de as tomarmos, como se de uma poção mágica se tratasse e fosse preciso tomar a medida exacta… então, hesitamos antes de agir e somente depois actuamos… as nossas escolhas devidamente pensadas tanto podem dar para o certo como para o torto… não há maneira de sabermos se aquela decisão, ainda que devidamente gerida e equacionada, vai resultar em pleno... mais tarde é que saberemos o resultado... na verdade e a experiência mostra-nos isso, quando usamos o instinto, verificamos o resultado da acção então utilizada, de imediato, quer seja bom ou mau… também, de imediato, ficamos felizes ou infelizes com a opção tomada... já quando apenas a tomamos depois de devidamente ponderada a questão, somente muito depois veremos o resultado… e até podemos viver angustiados aguardando o desfecho… será que fiz bem, será que fiz mal?... e agora?... bem, só tenho que aguardar e esta espera, esta expectativa provoca angústia, provoca danos, provoca dor... que faço?... escrevo um texto sobre que tema?... bem, vamos lá ver... penso, repenso e nunca mais me surge a inspiração para desenhar algumas letras sobre um tema que nunca mais se faz luz em mim… então, de imediato, começo a teclar instintivamente… saiu o que acabaram de ler... ao mesmo tempo que escrevia ia vendo o resultado de imediato daquilo que surgia no monitor... não houve angústia… não houve dor… utilizem o instinto o mais que puderem… vão ver que, geralmente, dá certo... também o pior que poderá acontecer é terem de perder tempo a ponderar a questão... mas será que ponderar é assim tão mau?... não sei, a decisão é sempre individual... façam o que vos aprouver... façam o que vos der na real gana... sejam felizes nem que para isso seja preciso chorar um pouco... às vezes é o medo de chorar que nos impede de avançar… porém, quase sempre vale a pena… é que umas quantas lágrimas ajudam a clarificar a situação e o panorama, após o choro, é quase sempre um pouco mais claro!...”

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

a nossa longa caminhada

“…há uma coisa que é necessário definir: todos nós, quando escrevemos (ou falamos), dizemos coisas reais e dizemos coisas irreais... fazemos um misto de retórica vã e não só… colocamos muito de nós e também muito daquilo que vai no nosso imaginário… não só falamos do que sabemos como também falamos do que não sabemos mas, principalmente, falamos com a Alma, com aquilo a que eu chamo de "desejo"… fala-se do que "desejaríamos" que assim fosse… quando não "foi assim" então fala-se do desejo de não ter sido como desejáramos que tivesse sido… somos todos duma ambiguidade angustiante (quer se queira admitir isto ou não)… mentimos a nós mesmos para nos desculparmos de tudo só que nos esquecemos que não somos culpados de nada… a ilusão não está em nós mas em tudo o que nos é dado como perceptível, ou seja, o que nos rodeia é que pode ser ilusão… nós não somos uma ilusão… a ilusão gira à nossa volta e tenta-nos de forma a que se perca a noção do que é a verdade e do que é a mentira… ficamos, então, apenas com o que temos… e o que é que temos?... a esperança de estarmos enganados ou de nos termos enganado e de que há ou vai haver solução… desesperadamente procuramos resolver esse problema… doutras vezes, desistimos e deixamos que tudo "morra" no limbo do esquecimento… no entanto, esse limbo é também ele mesmo uma ilusão pois o esquecimento não é viável… não podemos "cortar" ou "apagar" a memória… e esta é a que nos devora… engole-nos por vezes duma forma assustadora e noutras vezes duma forma mais suave mas não deixa nunca de nos engolir… somos como que absorvidos por esse buraco negro que é a lembrança… lembramos tudo, principalmente o bom porque subconscientemente escondemos num recanto da nossa memória tudo o que foi mau… até porque nunca tivemos a culpa do mal ou do mau acontecido… somos uns eternos inocentes… fazemos assim, ao longo da vida, exorcismos aos nossos demónios em vez de lançarmos louvores aos nossos anjos… passamos uma vida inteira a lamentar o inlamentável em vez de nos alegrarmos com tudo o que não deve ser esquecido… e tudo, tanto o bom como o mau, deve ser contabilizado na nossa passagem por esta dimensão do aqui e agora… e só há uma forma de se "conviver" nesse estádio de vida: é aceitar o que nos é dado viver… é aceitar o que nos é dado pois nada daquilo que "temos" é nosso… foi-nos concedido passar por isso, foi-nos concedido vivermos nisso, foi-nos concedido vivenciar determinados factos, factos estes que serão única e exclusivamente nossos e de mais ninguém… mais ninguém no universo sente o que eu sinto, mais ninguém no universo sente o que tu sentes… somos seres únicos, individuais e totalmente imperfeitos… vamos a caminho da perfeição mas que tarda em chegar… vamos ter muito que caminhar ainda até conseguirmos a espiritualidade do ser… porém e como ainda somos imperfeitos é-nos "concedida" a capacidade de "chorar"… é por isso que nada nos satisfaz… é por isso que buscamos a felicidade (quando ela está aqui, dentro de nós)… é por isso que sofremos… é por sermos ainda imperfeitos que não sabemos (ainda não aprendemos) aceitar… no que me diz respeito, tento duma forma lenta mas sistemática, tentar aceitar mas, na verdade vos digo, que não é fácil e, por vezes pois, preciso de "gritar" e de usar a tal forma de equilíbrio que me permita lentamente sentir o caminho que piso numa caminhada que sei tenho de fazer, sem olhar para o caminho mas apenas com a vontade enorme e grandiosa de caminhar… caminhemos, pois, de mãos dadas com o Amor, o único que nos fará sorrir e ter mais forças para percorrermos esse caminho, o caminho da Sabedoria, da Luz, da Paz e da Harmonia…”

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

e em ti me eternizo

“…os meus olhos pousam em ti e todos os meus sentidos te olham num delirar mútuo de atenção... vejo o teu corpo e deleito-me na tua alvura... cheiro o teu cheiro e aspiro a tranquilidade da tua paz.... ouço o teu respirar lento, como um lamento que não lamento… as minhas mãos tocam os teus cabelos e envolvem-se neles... acerco-me de ti e te toco... te sinto global e ali inteira frente a mim... beijo a tua boca e tudo se torna como num festim de doces carícias e sabor a sal... estou inteiro no teu corpo inteiro e me sinto nele como sinto o teu corpo em mim... é apenas um abraço, um enlace de braços que apertam sem apertar, sentindo apenas o teu respirar... minhas mãos percorrem a tua pele acetinada linda... fecho os olhos procurando apenas sentir… e sinto o desejo crescer em mim e o teu arfar sobe de tom... como é bom... a minha boca se cola na tua boca e a minha língua se funde dentro dela como se da tua se tratasse... é apenas mais um enlace... sinto o teu peito quente junto ao meu e beijo teus mamilos num acto de procura da loucura... loucura que me invade lentamente, premente ali presente ou então como se tudo mais estivesse ausente... meus braços te envolvem e se descobrem momento a momento como se fosse a primeira vez que no teu corpo se movem… sinto o cálido odor do teu corpo quente de amor, oferecendo-se como numa espécie de orgia sem pudor... minhas mãos tacteiam centímetro a centímetro toda a tua pele, todos os recantos de teus encantos e se encontram, de repente, sobre o teu ventre quente, dolente... afago tuas coxas e as tuas ancas e as aperto contra mim… procuro o teu sexo e o acaricio... beijo-te completamente num único beijo e me torno desejo do teu próprio desejo…te envolvo num abraço mais e te penetro… és tu que me possuis... não te tenho, és tu que me tens... movimentos doces se entrelaçam como se não fossemos dois mas um só... os nossos corpos se fundem num arfar profundo de prazer e loucura... já não sei o que sou, apenas em ti estou... eu sou tu e tu és eu numa fusão de ser e estar... na verdade és tu que me possuis pois eu não te tenho, és tu que me tens pois em ti eu me dou... e em ti eu me eternizo…”

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

amor de lobos

"...seriam cerca das 3 da madrugada quando na esquina da velha igreja daquela velha aldeia lá muito ao norte, quase a perder de vista a sua própria existência, se juntaram em silêncio 4 esbeltas mulheres de longos cabelos à solta, todas elas vestidas de branco... um branco alvo, como vestidas de noivas, sem véus nem grinaldas mas de branco... sentia-se um vento meio gélido naquele campo verde que se estendia para além das traseiras daquela velha igreja daquela velha aldeia... mas não se notou qualquer tremor de frio em nenhuma daquelas 4 esbeltas mulheres... a cor dos seus corpos roçava a cor do leite que, momentos antes haviam bebido dum mesmo canado... seus olhos negros, profundos, brilhavam quando os raios do luar daquela lua cheia lhes batiam nas faces em todo o seu fulgor... era uma lua grande, de prata, brilhando num brilho baço mas ao mesmo tempo ofuscante... deram-se as mãos umas às outras e continuaram o seu caminho... para trás ficava tão-somente um cheiro a flores... seus pés estavam nus e pareciam caminhar por sobre a erva daninha daquele campo verde... lá ao longe, um pouco mais para cima, divisava-se um morro e no cimo desse morro uma frondosa árvore, erguia os seus ramos numa espécie de posicionamento de espera e de aceitação... como que esperando por elas e pronta a abraçá-las... o silêncio era total e entre elas não se ouvia um único som... quem as visse de longe para cá daquela velha igreja daquela velha aldeia, pensaria que as 4 visões voavam ou pelo menos deslizavam... cada uma das que ficavam na ponta levava um cesto de verga coberto por pano branco de linho feito... e eis que chegaram aos pés da árvore... pousaram os 2 cestos de verga no chão e deram-se as mãos num círculo que abraçou o tronco da árvore frondosa e num misto de magia a árvore como que se baixou sobre elas como que as cobrindo num acto fálico enquanto as suas folhas roçavam os seus corpos... dos cestos, depois de terem desfeito o círculo, tiraram algo que não era visível aos olhos dos outros seres humanos e que não era possível descrever... entretanto, algures, num outro ponto daquela aldeia, deitado numa cama de doces sonhos, um homem alto, bem constituído fisicamente, com o corpo nu coberto de pelos negros, dormia e via-se que estava possuído por algum sonho de lascívio prazer, pois notava-se através da roupa da cama que o cobria que o seu sexo estava excitado e algumas gotas de suor lhe cobriam o peito forte... repentinamente, num passe de feitiço, esse "sonho" transportou-o para os pés daquela árvore frondosa onde se encontravam as 4 mulheres lindas vestidas de branco... ele olhou para ele mesmo e viu-se nu, tal como viera ao mundo e ao ver aquelas mulheres instintivamente levou as mãos numa tentativa de tapar o seu sexo erecto... a partir desse momento aquele homem entrou num espanto e seus olhos não queriam crer naquilo que estavam a ver... elas se começaram a despir e apenas tinham aquele vestido branco sobre as suas peles acetinadas cor de leite... e ele olhava... elas começaram a sorrir e os seus sorrisos eram como um convite ao sonho... daqueles cestos retiraram uns frascos que continham vários fluidos e começaram a untar os seus corpos... e ele olhava e começava a compreender o que via... elas o fizeram ver... uma se untava de mel, uma outra de untava de leite puro de ovelha uma outra de água salgada do mar e a outra de um creme que cheirava a jasmim... e ele não resistiu e o sexo se tornou novamente erecto e o seu corpo parou de tremer... aqueles corpos untados cintilavam quando os raios da lua cheia lhes batia na pele e elas continuaram com o ritual... todo o seu corpo foi untado incluindo os seios, o pescoço, as pernas,... apenas os cabelos soltos ficaram secos... então, elas se aproximaram daquele homem e se roçaram por ele de tal forma que o corpo dele ficou totalmente embebido daquela mistura de fluidos...apenas as mãos dele ficaram secas... e num acto quase que instintivo elas se deitaram no chão sobre os vestidos brancos que faziam de leito, o leito do Amor, o leito da procura do Amor, o leito da descoberta do Amor... e ele se misturou com elas e começou a possuí-las, uma a uma, e também numa mistura arbitrária de escolha... o seu corpo confundia-se agora com o corpo delas e já não existiam 4 mulheres ali... apenas existia uma única mulher onde ele se fundia numa escolha impossível... os ventres juntavam-se e os costados também... ele as tomou por detrás agarrando-se aos cabelos delas com as suas mãos possantes e puxava as cabeças delas num misto de prazer e dor, de agonia e êxtase, como se tudo se pudesse perder num só instante, numa avidez de gozo indescritível ... de repente ele sentiu os diversos odores que o cercavam e aos poucos foi deixando uma a uma até que ficou olhando aquela que cheirava a mar... e, nesse momento, algo de mágico se passou: um raio de luar atingiu-o e ele numa nova forma de sentir, viu lentamente o seu corpo transformar-se em lobo, um corpo coberto de pelo sedoso negro e brilhante ao mesmo tempo que a mulher que cheirava a mar se posicionava como fêmea do lobo... e ele a agarrou pelos cabelos puxando a sua cabeça para o seu peito e com firmeza a penetrou fundo num acto de posse total, num acto de prazer inimaginável onde a fusão foi possível tão-somente por magia... o seu corpo ofegou e o instinto animal veio ao de cima e, no mesmo momento em que lambia todo aquele mar, ele, num último uivo lancinante de prazer, espalhou sobre ela todo o fruto do seu Amor... então os corpos se misturaram e apenas se divisava um casal de lobos fazendo Amor... os seus corpos não conseguiam parar e num espasmo final ela se transformou em maresia, como que alva espuma misturada com o fluído dele... então, naquele silêncio de corpos se amando, um último uivo, não o dele mas o dela, se fez ouvir por aquela encosta abaixo, no preciso momento em que os primeiros raios de sol começavam ao longe, bem perto daquela velha igreja daquela velha aldeia, a despontar... nesse momento, o homem acordou de repente na sua cama e olhou e viu: uma mulher linda, vestida de branco, dormia profundamente ao seu lado..."

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

religião e sacrifício


"...Às vezes, perguntam-me o que é que eu penso sobre o gesto daquela gente que, em Fátima, se arrasta de joelhos ou até só se arrasta pura e simplesmente...
A resposta é simples: evidentemente, tenho compreensão sincera e compassiva (no sentido etimológico da palavra compaixão) para com aqueles e aquelas que, no abismo da sua dor ou tragédia, se convenceram de que, arrastando-se diante da divindade, a comoveriam e forçariam a libertá-los... Mas também é evidente para qualquer ser pensante que um Deus que, para ser favorável ao ser humano, precisasse de toda aquela humilhação e tortura era um Deus sádico, que, por isso mesmo, não poderia merecer consideração nem respeito. Perante um Deus sádico, só há uma atitude humanamente digna: que passe bem sem nós... No entanto, foi pregado tonitruantemente ao longo de demasiado tempo que Deus precisou do sangue do próprio Filho para aplacar a sua ira divina... Pergunta-se: como é que foi possível pregar e acreditar num Deus vingativo e sádico, um Deus pior que qualquer pai humano sadio, decente?...
É evidente que Jesus não morreu na cruz para aplacar a ira de Deus. Jesus foi vitima da maldade dos homens e mulheres, e não da ira de Deus... A cruz de Cristo é a expressão máxima do amor incondicional de Deus para com todos os homens e mulheres. Jesus, o excluído, é aquele que não exclui ninguém. Pelo contrário, inclui a todos no amor sem condições... É isso: o sacrifício pelo sacrifício é detestável. Mas, por outro lado, nada vale realmente sem sacrifício. Por causa do império de uma banalidade mole hoje triunfante, é recusado a muitos o sabor daquela alegria que resulta da superação dos obstáculos... De facto, na de grande, belo e valioso e digno se faz e constrói no mundo sem sacrifício. Os valores merecem que nos batamos por eles, e é esse sacrifício enquanto luta por aquilo que vale que nos engrandece como seres humanos... Quem diz que ama e não está disposto a sacrificar-se por aquele que ama anda enganado e mente a si próprio. Quem ama verdadeiramente está disposto a sacrificar-se por aquele, por aquele, por aqueles que realmente ama. É esse amor que salva o mundo e faz novas todas as coisas. Mas aí, quando se ama, a cruz é leve... Àqueles que o criticavam por participar em banquetes oferecidos por pecadores públicos Jesus respondeu: “Ide aprender o que significa: O que eu quero é misericórdia e não sacrifício”. Jesus também disse: “Quem quiser seguir-me tome a sua cruz todos os dias”. Referia-se àquela cruz que dá testemunho da verdade e que acompanha o combate pela liberdade, pela dignidade, pela justiça, pela criação, pelo amor...”

In JANELA DO (IN)VISÍVEL
Por
Pe. ANSELMO BORGES

(porque o subscrevo)

domingo, 20 de janeiro de 2008

o momento divino

“… desde sempre me interroguei sobre o porquê do orgasmo ser algo que não tem similitude com qualquer outra sensação do corpo humano… ou seja, os sentidos proporcionam-nos sensações definidas e concretas que sabemos entender e para além de as poder referenciar, podemos também encontrar algumas parecenças entre umas e outras… estou a lembrar-me, por exemplo, do “prazer” de aliviar a bexiga, do “prazer” de espirrar, do “prazer” de inspirar a maresia, do “prazer” de saborear um bom gelado, etc… nesses prazeres, podemos encontrar algumas parecenças entre uns e outros mas todos eles definidos, circunscritos e absolutamente “normais”... o prazer no momento do orgasmo é algo que transcende todos os outros… é o prazer supremo… o cume dos sentidos… o topo de gama!... em toda a minha vida ainda não encontrei nada melhor, nada que proporcionasse ao meu corpo (e penso que ao meu espírito) a escalada ao pico dos prazeres sensoriais… é algo que não tem explicação... podem vir com teses neurológicas, fisiológicas e outras que tais mas a verdade final será sempre a mesma: maior e melhor prazer que um orgasmo, não existe!... daí que, me tenha interrogado ao longo da vida sobre o porquê de tal sublimação!... ou seja, porque razão é aquele e não outro o prazer maior… há filosofias que defendem a ideia de que o sexo é a sublimação por excelência na medida em que significa a união que cria vida… repensei e admiti que o orgasmo também pode ser obtido por estimulação solitária, a vulgar masturbação... porém, aprendi ao longo dos tempos que há diferença entre o prazer que se obtém no orgasmo provindo dum acto solitário e o que se obtém na junção de dois corpos no acto da mais pura cópula, entenda-se vaginal... assim, fui procurando tentar entender porque razão a “natureza” premeia com um prazer sublime todo e qualquer acto sexual na junção de um pénis com uma vagina… desde a necessidade de procriar para a continuidade da espécie, até à frase batida de que até os bichinhos gostam, a verdade é que de todos os actos humanos, aquele é o topo de gama!... só pode haver uma razão: ser aquele momento, o momento divino, o momento em que Deus está em nós e se sublima, sublimando-nos!... é o momento em que Ele vive, em que Ele vibra… é o momento em que Ele diz que existe, que está, que é… é o momento em que Ele nos penetra em totalidade e num único e breve instante Ele se reduz à insignificância do Homem e se transcende na divina certeza de que aquele é tão-somente e apenas o momento da fusão da carne e do espírito… o fugaz momento em que o Homem se torna Deus!...”

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

anatomia de um beijo

“…coloco um beijo na palma da minha mão e olho-o para o estudar, para o entender, para saber algo mais sobre ele… a sensação é apenas de toque suave dos meus lábios na palma da minha mão… nada mais retenho que o saber que senti a minha pele tocada pela minha própria boca… preciso saber mais sobre o beijo… examinar minuciosamente de forma a sentir o beijo como algo físico, palpável, real… então, aproximo-me de ti e olho-te nos olhos, nesses olhos que brilham dentro de mim como se tu não estivesses ali mas aqui, como se tu fosses parte do meu ser… toco-te com as minhas mãos nos teus ombros e dou um passo em direcção a ti… tua face serena, abre-se num sorriso… levo a minha mão aos teus cabelos e acaricio-os deslizando na seda dos mesmos… os nossos corpos encostam-se ao de leve num toque global presente sem ausência de sentidos, bem pelo contrário, com os sentidos todos em alerta… olho a tua boca entreaberta nesse sorriso que me encanta e seduz… és luz… és sol… és brilho em meu redor… humedeço meus lábios e aproximo-me lentamente da tua face… toco com eles ao de leve na pele que reluz perante o meu olhar… sinto o sal… um sabor leve a mar… os meus lábios tocam as tuas pálpebras fechadas para receber o meu beijo… sinto um suave sentir, um sorrir no olhar como se de outra boca se tratasse… retiro a minha boca e olho-te de novo… preciso saber o porquê do beijo saber a tudo o que tu és, numa dimensão de ser paz, doçura, mel e mar… vejo-te humedeceres os teus lábios e muito suavemente toco-os com os meus… mantenho a minha boca ao de leve no teu lábio superior e de seguida saboreio o teu lábio inferior… e sinto amor…sinto que preciso de sentir mais, de saber mais e melhor o porquê da paixão… é nesse momento que toco em completo a tua boca e saboreio o mel que tal sensação me transmite… as línguas tocam-se ao de leve para em seguida se fundirem num só beijo, num só toque… já não são duas bocas que se beijam pois é apenas o beijo em si mesmo que ali se encontra, se forma, se transmuta, se torna ávido e sereno ao mesmo tempo… mantemos o sentir tais sentidos, leves, lábios mordidos, línguas entrelaçadas e o sabor doce penetrar em permuta o âmago daquela sensual luta de pele com pele, de alma com alma, de corpo com corpo… e a paixão nasce daí e cresce em mim como em ti… saboreamos o momento… entramos em transe e deixamos de ser quem somos… e o beijo perdura num planar de doçura… e o beijo se torna dono de nós num galopar de sensações plenas, profundas mas de tal forma suaves e serenas que o beijo deixa de ser beijo para passar a ser desejo…”

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

regresso

“…acabou-se o que era bom!... Mas tudo tem de ter um términos e o período de 15 dias de descanso serviu para retemperar as forças físicas e psíquicas para aguentar mais um período de trabalho, um trabalho que não sendo “trabalho” é muito trabalhoso… mas enfim, lá tem de ser e pronto, há que andar para a frente e enfrentar o dia a dia esperando que tudo se vá resolvendo pelo melhor… mas quanto às férias, a única coisa que vos digo é que foram maravilhosas (em todos os sentidos)… os locais por onde andei (sempre em óptima companhia) apesar de não ter sido a primeira vez que lá havia estado, são locais de sonho e de muito descanso tanto para o corpo como para a mente… por outro lado, pela boca peca-se pelas iguarias com que nos deparamos onde quer que se vá… é um sabor divino qualquer um daqueles sabores (e eu que tanto gosto de sabores e saberes…)… enfim, uma pequena prenda que dei a mim mesmo… aproveito para agradecer as vossas amáveis visitas, os vossos agradáveis e simpáticos comentários e agora, passado este período, espero voltar aos meus textos, às minhas palavras, às minhas divagações pela escrita que vós tanto me reconfortais pela vossa sempre presente presença… não vos vou cansar com fotos dos locais… deixo apenas ali ao canto um pequeno pormenor apenas para colorir um pouco este branco espaço que a palavra escrita preenche… os meus (sempre) abraços e beijos para todos…”

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

férias

"...amanhã parto para férias... regressarei aqui dia 15... há cerca de 20 anos que não tirava umas férias assim tão prolongadas... é apenas um prémio merecido por tantos anos de trabalho sem descanso apesar de reformado... é que na minha situação, trabalho não significa estar empregado como já estive outrora... trabalho existe de muitas formas e os últimos anos têm sido de muito e muito trabalho e quem me conhece sabe porquê... vou assim, em boa companhia, usufruir de um hiato e aproveitar o que a vida ainda me tem para dar... fazendo um balanço do ano que passou, não me posso queixar mas desejo fortemente, de bem do fundo do meu coração, que 2008 seja imensamente melhor e onde, acima de tudo, impere o Amor... aproveito, assim, a oportunidade para vos desejar umas boas entradas no novo ano de 2008... e, não se esqueçam: amem e, por favor, sejam felizes..."

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

ali

“...te vejo ali, parada, me olhando só... não há palavras, nem medos, nem lágrimas... há apenas um olhar profundo e um toque suave como se fosse o toque mais importante deste mundo... te olho e te fixo a alma... te possuo mesmo antes de te tocar, de te amar, até mesmo antes de te olhar... é tudo muito mais forte do que o meu querer... olhar-te bem dentro mesmo sem te ver... sentir-te só de te desejar, ali, parada numa pose linda, somente a me olhar... fixo tua boca e te sorvo completa... te abraço sem te abraçar... te afago sem afagar... te penetro sem te penetrar... está tudo ali, em ti, a meu lado... basta te desejar... e meus olhos já te possuíram... e teus olhos já me abraçaram... e teus olhos já me sentiram... ali, sem questionar, me estendes a mão... vejo teu corpo a arfar.... e sentes minhas garras te tocar... e teu corpo em minha alma se entregar... tudo tão simples: apenas o desejo de te desejar...”

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

garra

"...às vezes, em muitos momentos da vida, as pessoas vêem-se perdidas, sem razões para estarem onde estão ou por estarem como estão... às vezes, em muitos momentos da vida, o ser humano questiona o porquê do seu sofrimento, a razão pela qual merece ou não merece a desdita que enfrenta... às vezes, muitas vezes, o ser humano duvida do porquê dos muitos porquês que assolam as suas dúvidas... às vezes duvidamos apenas porque não olhamos para o lado e não vemos que outros têm mais razões para duvidarem do que nós...e, sem razão, colocamos o nosso problema como o mais grave de todos quando outros nem sabem que têm um problema porque ele é a sua razão única de ser... às vezes, precisamos apenas de ter "garra", de nos agarrarmos a qualquer coisa, a algo que saibamos ser a solução para o nosso problema... às vezes, bastaria um sorriso e, principalmente, saber amar... saibamos agarrar o Amor como único suporte para a dor que julgamos estar a passar... agarrem o Amor enquanto é tempo... depois, depois pode ser tarde demais... amem... agarrem o Amor... sejam felizes apesar de tudo..."

domingo, 23 de dezembro de 2007

natal

"...hoje venho apenas deixar um singelo (como singelo é o Presépio na imagem) desejo de um FELIZ NATAL para todos... que a época seja de Paz e de Felicidade... que Todos se empenhem num Mundo melhor, em menos fome, em menos dor, em menos lágrimas... em que todos façam algo pelo seu semelhante, em que o Amor possa vencer e que cada um dê um pouco de si ao que de si precisar, tão só e apenas porque o caminho é Amar..."

sábado, 22 de dezembro de 2007

sabor de uma lágrima

“…ele olhou-a nos olhos e viu uma tristeza profunda na alma ou lá onde é que a tristeza ou a alegria se instalam às vezes em nós… ele olhou-a nos olhos e viu o que ainda não tinha visto: a mágoa de não ser o que queria ser, a dor de não poder, o sofrimento do desejo insatisfeito ou ainda do satisfeito não desejado… olhou-a bem nos olhos e viu-a chorar por dentro sem que uma lágrima bailasse nas pálpebras tão serenamente abertas… olhou-a uma vez mais, sem pressas (ou altivez como quem percebe o que está a fazer, ou a sentir ou ainda a ver), com vagar, com doçura, com precisão… sentiu-lhe a pulsação acelerada quando lhe pegou na mão… tinha-a fria, quase gelada e aquele olhar tão triste ainda mais fria tornava aquela mão… pegou nela e levou-a até ao seu peito… espalmou-a bem de encontro à sua pele em peito nu e com a outra mão cobriu as costas dela forçando-a a ficar ali para que o calor a invadisse… não, nada lhe disse… ficou assim, olhando bem fundo dentro dela… aproximou a sua boca da boca dela, muito lentamente, e muito ao de leve pousou lá um beijo… nesse momento, sentiu nos seus lábios o sabor salgado de uma lágrima… saboreou o gosto e pousou-lhe a cabeça pendida no ombro… apertou-a contra ele e deixou-se ficar assim, juntos… um momento eterno para lembrar se tivesse sido filmado naquele momento… seria uma pose a lembrar para o resto da eternidade… sentiu a mão dela a aquecer e a sua face enrubescer num lento esgar de um sorriso… viu então o seu olhar, até ali perdido, encontrar-se em algum lugar… talvez dentro de si mesma, talvez dentro dele, talvez na fusão dos dois, não interessava, mas ele, o sorriso, ali se encontrava, um sorriso que brotava do calor dos corpos ou do bater de dois corações que se amam e tudo entendem… ele sorriu também, os corpos se moveram e se convulsionaram num espasmo de espanto e de sabor a tudo e a tanto… o doce sabor do perdão… o doce sabor da gratidão… o doce paladar do encontro, do confronto, do calor do ombro deixado de ser almofada para se tornar parte do abraço… e o riso se instalou num suave embalar dos dois ao mesmo tempo que aquela lágrima ficara lá, em lugar distante, perdida, a secar…”

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

espelho

“…torno-me espelho de mim mesmo e a luz que em mim me toca, se reflecte no exterior do meu ser… espalho o que sou no espaço em meu redor… vejo-me diverso e dividido em milhares de partículas de luz, facto que tanto me seduz… porém, receio quebrar-me em mil pedaços e perder a magia destes meus ténues passos pelo mundo da fantasia… elejo-me mentor de mim mesmo e, sereno, torno-me pleno daquilo que sou: uma partícula apenas no meio do nada que me rodeia… mas a minha imagem, por todos os lados dividida, semeia no espaço em que me insiro tudo o que tenho por pouco que seja e eu sinto que a verdade deste louco imaginar, mais não é do que o desejo de o ser, de em mil imagens me tornar e… me dar…”

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

criar magia

“…a magia não se vende, não se compra, não se cria… a magia pode estar apenas num sonho… nas tuas mãos… na tua pele… no teu seio… dentro ou fora de ti… a magia pode estar aqui…ou aí… a magia é o que quisermos que ela seja, um acenar, um olhar, um beijo, um dar a mão, um estar presente… a magia pode estar apenas num sonho, num local, em nós ou nos outros… pode estar no amigo que nos cumprimenta, no abraço ou no enlace… no corpo ou na alma… nos olhos, no rir ou na lágrima… a magia é o que quisermos que ela seja… não necessitamos de ser feiticeiros para criar magia… basta chamar por ela ou estender a mão ao feitiço… basta apenas isso… perder a razão, deixar de ter o siso… entender que a magia é real se dentro de nós existir um sonho… seja ele qual for… vamos prosseguir e persegui-lo… vamos atrás dele, devagar ou a correr, veloz ou calmamente… a magia é o que a gente quiser… basta desejar com força e ela estará logo em nós, ao nosso lado… às vezes nem precisa de ouvir a nossa voz… por ser magia ela sabe do que precisamos… então, vamos… vamos criar magia dentro do que tivermos para a albergar nem que ela seja apenas um sonho mas sem nunca esquecer que nesse mesmo sonho a magia pode existir e nos fazer sorrir…”

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

quando sabemos que se ama?

“… há dias escrevi-te dizendo as razões pelas quais te amo… escrevi dizendo, afinal, que te amo porque te amo… mais tarde comecei a pensar se existe um momento a partir do qual se começa a amar e se esse momento existe, como sabemos então que se ama?... disse-te também há tempos que o amor não tem tempo nem espaço pela simples razão de que o Amor apenas, é… vive, subsiste, existe, está… é algo definido, concreto mesmo não sendo físico nem metafísico, o Amor é algo que é… sendo assim, não tendo o Amor tempo nem espaço e sabendo nós que amamos, como se sabe que se ama?... dediquei todo o tempo da minha vida à procura do Amor, na busca constante do meu “Graal”, na demanda do porquê do se ser e do se estar e das razões pelas quais aqui estamos… durante todos esses anos procurei e um dia (não interessa quando porque o Amor não tem tempo nem espaço) descobri que o Amor está (é) em cada um de nós… não é nada que se descubra ou possua ou se encontre… ele, o Amor, está em nós mesmos… se ele está em nós então ele é nosso, de nossa pertença e faremos dele o que bem se quiser… daí que, quando afirmo as razões pelas quais eu te amo, estou ao mesmo tempo a dizer que te amo apenas porque sei que o Amor que está dentro de mim, passa para ti… deixa de ser “meu” e começa a “existir” em ti porque apenas e só, te doo esse Amor, numa entrega sem pedir troca… dando-o, sei que o dou e nesse momento passo a saber que te amo… assim, só existe uma única forma de sabermos se amamos (ou quando é que sabemos que estamos a amar), é sabendo que o Amor que estava em nós foi dado a outrem, entregue simplesmente, como dádiva… e esse Amor pode estar num simples gesto, num olhar, num acenar, num toque, num sentir, não se ser o que éramos e passarmos a ser de outrem… nesse momento, quando nos sentirmos parte do outro, saberemos que estamos a amar… em contrapartida, quando soubermos que fazemos parte de outrem também saberemos que estamos a ser amados… porque apenas e só, o Amor… é...”

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

alma

"...me haverás de perseguir por toda a Eternidade e em mim habitar como uma segunda Entidade, uma alma ou o que queiras ser... serás sempre uma presença a conter a minha essência, mesmo presente ou mesmo na ausência... serás o meu guia, o meu âmago, o Alpha perfeito no meu jeito de amar, de me ser e de me estar, aqui ou ali ou aí, no teu cerne, no meu peito, no corpo do meu amor, no doce beijar da pele que te cobre na acetinada presença de quem amo..."

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

lobices 2


...Nasceu o "lobices 2" *****AQUI*****

porque te amo?

“…amo-te porque te amo… porque me sinto bem quando te olho… quando te toco… quando te beijo… quando sinto a tua pele perfumada junto da minha… quando te vejo sorrir para mim… quando ouço a tua voz… quando te ris… quando me tocas, me acaricias e me fazes sentir homem… amo-te quando me dizes que também me amas, quando me dizes gostar de mim, quando me olhas e vejo no teu olhar a tua alma e o reflexo da minha… quando sabemos que nada mais no mundo nos importa… quando sentimos que tudo o que gira à nossa volta está parado e somos o centro de tudo… amo-te quando te digo que te amo, quando te sussurro palavras ternas, quando ouço as que me dizes… amo-te quando me dás um mimo, um sabor, o roçar ao de leve ou mesmo forte… amo-te porque te amo… porque te sinto bem quando me olhas… quando me tocas… quando me beijas… quando sinto que sentes a minha pele… quando te sorrio… quando ouves a minha voz… quando me rio… quando te toco, quando te acaricio e te faço sentir voar… amo-te quando estou aqui ou aí… amo-te mesmo quando não estamos ou não somos… amo-te porque sei que te amo, porque sinto que te amo, porque vivo esse amor duma forma terna, doce, suave e pura mesmo quando os corpos se entrelaçam e vibram em loucura… amo-te assim, tão simples…tão tudo em ti e em mim…”

sábado, 17 de novembro de 2007

love

domingo, 19 de novembro de 2006

Morte e Renascimento

“… fecho as portas deste espaço… fecho o meu blogue lobices… encerro o meu covil… estagno as palavras dentro deste “templo” que aqui permanecerá no meu coração… espero que no vosso também… as janelas continuarão abertas para que o ar possa penetrar e nele se possa ainda respirar… não o quero morto nem esquecido… quero-o vivo, bem vivo dentro de mim… foram 3 anos de escritos em palavras e imagens… ficam aqui os meus momentos… fica aqui, principalmente, a minha gratidão por tudo aquilo que todos me deram, por tudo aquilo que de bom me proporcionaram… peço-vos perdão pelo tempo que vos roubei mas quero guardá-lo bem dentro do meu ser… porém, a morte provoca o renascimento porque tudo se modifica: e com a morte do blogue nasceu o livro Lobices… aqui ao lado à vossa disposição… o meu sincero obrigado e um bem-haja a todos…”

sábado, 18 de novembro de 2006

paz ao sol


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"...não é branca mas é, na mesma, símbolo de paz num banho de sol..."

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

finalizando

"... a viagem tem sido agradável mas já vem sendo mui longa... pelo caminho encontrei coisas boas, muitas; poucas coisas más... esta estrada é deliciosa e nela se encontram todos os sentimentos que possam existir no ser humano... nada nela me fez infeliz... tentei sorrir sempre o máximo que pude e me foi possível porque a vida me tem dado também alguns pontapés... não estou ainda cansado nem acabado mas este espaço aqui em que tenho vivido entre vós está a tornar-se apertado e preciso de respirar... este espaço precisa de arejar e deixar um outro espaço que eu possa preencher sem prescrever... só prescrevemos quando a morte nos vem buscar e eu espero bem que ela venha ainda muito longe... por isso, decidi fechar as portas desta "nossa" casa no dia em que ela faz 3 anos: no próximo dia 19... o lobices nasceu no Sapo em 19 do 11 de 2003... quero guardar tudo isto no meu coração... aos poucos me irei despedindo deste ainda enorme pedaço de mim..."

sexta-feira, 10 de novembro de 2006

terça-feira, 31 de outubro de 2006

adormecendo

“… deixa enroscar-me nos teus braços… coloca tua mão na minha cabeça e enrola os teus dedos nos meus raros cabelos… baixa um pouco a tua fronte e beija a minha boca… deixa enroscar-me no teu colo… sentir a tua maciez e ver de baixo para cima o teu sorriso… ver-te junto a mim e saber-te ali comigo… de tal forma que quando olhas eu sou o teu olhar… de tal forma que quando sorris eu sou os teus lábios… de tal forma que quando me afagas eu sou a tua mão… de tal forma que quando me tocas eu sou o teu corpo… de tal forma que quando me olhas eu sou o teu olhar… deixa pousar o meu cansaço na tua serenidade e sentir a tua paz na minha guerra… baixar as armas e sentir a trégua na tenda que se ergue no deserto da batalha… humedecer as mãos na brisa da água que corre no ribeiro que nos circunda… lavar a cara na frescura do vento que nos embala… sentir que nem tudo é real mas que o sonho nos preenche… sentir que, por vezes, só o desejo chega, só o querer basta, só o pensar nos satisfaz… deixa-me ser não só a realidade mas também o que não somos… deixa-me olhar para dentro de ti e ver-me inteiro… deixa-me tocar-te com o sonho e saber-me parte dele como sei que ele é uma parte do meu eu verdadeiro…”

quinta-feira, 26 de outubro de 2006

sábado, 21 de outubro de 2006

cristiana

...Cristiana veio a seguir ao Nuno (meu primogénito)
...faz hoje 35 anos que me deu a alegria de ser pai mais uma vez
...longa caminhada esta que nos levou por estradas tão diversas
...sendas percorridas com risos e lágrimas
...metas que não estão escolhidas mas que serão atingidas
...com esperança no peito e um sorriso na alma
...parabéns filhota!
...um beijo muito grande

sábado, 14 de outubro de 2006

guilherme


"...e porque o meu neto mais novo faz hoje 5 anitos, aqui fica um voto de muitas felicidades e um beijo grande de muito carinho deste avô (sempre) babado..."

sexta-feira, 6 de outubro de 2006

acordar

“… Corpo... Onde se encontra ele?... Que sabes tu de mim?... Que entendes tu da matéria que forma o meu corpo, o meu eu, o meu ser, o meu aqui? Será que não o é? Será que não há corpo? Claro que sei: a morte não tem importância porque a vida é apenas um sonho, eu sei disso; mas nem assim deixa de ser um factor inquisitivo sobre o que é o meu corpo. É por isso que te pergunto se sabes o que ele é, onde está, o que faz, para que efeito está aqui e para onde vai… é por isso que me interrogo e não encontro respostas. Dizes-me apenas que me sentes e que sou real e eu não entendo porque não me encontro; como podes tu dizer que existo se eu próprio não me conheço?... Como podes tu dizer que sou se eu próprio não estou?... Deliro dentro do meu sonho nesta vida sem encontrar o antídoto para acordar. Espero apenas que, pelo menos, tu sejas real para poderes sonhar comigo também. Espero apenas que sintas o meu toque quando me tocas. Espero apenas que saibas que estou aqui porque tu dizes que eu existo; e, se existo, existo para ti… para mim através de ti… para além do sonho de me saber aqui no colo que me dás, no abraço que me aperta, na carícia que me afaga, no beijo que me sossega, no corpo que me deseja… E, ao acordar a teu lado passo a porta do sonho para o quarto da realidade… E espelha-se em mim, por fim, a tua serenidade…”

segunda-feira, 2 de outubro de 2006

escrita

"... coloco aspas e reticências... um hábito já muito antigo quando quero viajar pelas palavras nem que seja para vos desejar uma boa semana de trabalho... tento, dessa forma, pairar sobre elas na procura das letras que formem palavras... pairo sobre as vogais e as consoantes e demoro-me na procura das frases, das orações, dos pronomes, dos adjectivos, dos verbos e das verbalizações... concebo ainda a existência das vírgulas, dos pontos, de exclamações e por vezes coloco também uma ou outra interrogação... passo ainda pelos advérbios, pelas conjunções, pelos acentos circunflexos, agudos e em algumas vezes os graves... utilizo ainda as palavras que contenham hífen e quase nunca as que possuem tremas... dou uma olhadela pela possível utilização dos números ou dos algarismos, mas raramente... aproximo-me ainda dos galicismos ou de outras proveniências e tento, por ventura, fazer algum sentido com toda esta amálgama de fonemas, ditongos ou quem sabe ainda se também pelas amorfas e pelas átonas... o que quer que elas sejam, elas ficam aqui impressas num exercício renovado de prazer em as escrever e depois as ler... depois desta viagem, pouso a escrita com mais umas reticências e fecho a porta com mais umas aspas..."

quinta-feira, 28 de setembro de 2006

existem estrelas


"... algures, num ponto inacessivel à vista humana, num lugar que não se sabe se existe ou se será como pensamos que possa ser, poderá estar o meu destino, ou a meta de qualquer um de nós... num viajar pelos domínios do sonho eu apenas quis deixar aqui expresso o meu voto de um bom fim de semana para todos vós e que, no mínimo, as estrelas vos possam guiar..."
(photo from Astronomy.com)

segunda-feira, 25 de setembro de 2006

outono


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"... a bolota que se guarda... a fazer lembrar as castanhas assadas... com os votos de uma boa semana para todos vós..."
(foto tirada da net)

sexta-feira, 22 de setembro de 2006

ida

“… Agacho-me com facilidade porque as calças de ganga assim o permitem; no entanto, os sapatos estão enterrados na areia mole da última chuva que caiu… estendo a mão e sinto-a fria mas de textura admirável… afago-a e sinto os seus minúsculos grãos passearem-se pela minha mão… é uma sensação agradável mas ao mesmo tempo faz cócegas e sinto necessidade de a retirar… mas não: enterro os dedos na areia fina e rodo-os o mais que posso para sentir já não a finíssima camada mas a dureza da mais dura que existe por debaixo… tiro os dedos e a mão traz um punhado de terra, terra granulada pertença das águas do mar… olho-a bem e permito que os dedos da minha mão se abram e os grãos deslizem… o vento sopra de norte um pouco forte e não consigo visionar a queda daqueles minúsculos pedaços do meu mundo, do mundo em que habito e que está sob os meus pés… o vento então, leva-os para bem longe de mim… mas, ao mesmo tempo que os vejo fugir sorrio porque imagino que para além dali onde estou, aqueles pedaços de nada e de tudo levam um pouco de mim para outro lugar… vagueio, pois, ao sabor do vento e sei que uma parte de mim irá viajar para bem longe; aqueles grãos levam as minhas impressões digitais, o meu cheiro, parte da minha pele, parte do meu ser, daquilo que fica aqui e agora e que, ao mesmo tempo, voa para outro lugar… o prazer de me saber, afinal de contas, presente mesmo fora de mim…”

segunda-feira, 18 de setembro de 2006

brincos


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"... o mundo anda conturbado em todos os sentidos... procuro palavras para explicar a mim mesmo o que vai na mente e no coração do Homem... não encontro... e a tristeza me invade... olho em frente, espraio o meu olhar e vejo as cores e o sol e os pardais e ouço os sons da vida que me rodeia e inspiro o aroma da terra... toco nas minhas flores e absorvo a sua beleza e a sua inocência... aspiro aprender o que a natureza ainda tem para nos ensinar e que nós teimamos em não aprender... então, pelo menos, tento fixar o momento, eternizar o momento para não me esquecer que a beleza está à nossa frente e que o Homem não a quer ver... uma boa e feliz semana para todos vós..."

sexta-feira, 15 de setembro de 2006

hoje

...e porque hoje gotas de chuva também me lavaram a alma
...e porque hoje também despi meu corpo e me olhei inteiro
...e porque hoje senti a sombra da minha ausência
...e porque hoje sorri à solidão e não fechei a janela
...e porque hoje abri a porta e entrei dentro de mim
...e porque hoje berrei o silêncio e o grito calei
...aqui vim e me quedei sorrindo do choro que ainda não chorei

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(republicação)

terça-feira, 12 de setembro de 2006

setembro


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"... ontem cairam as primeiras gotas de chuva de Setembro... apenas uma espécie de orvalho mais forte... o cheiro a terra molhada entrou por este meu canto adentro... fui inspirar o ar puro desse aroma... olhei as minhas rosas... não resisti... as suas pétalas sorriam para mim e estavam húmidas de prazer... quis eternizar o momento em mais uma das minhas fotos..."

segunda-feira, 11 de setembro de 2006

orar

No dia em que se comemora mais um aniversário sobre os tristes eventos do ignóbil "nine/eleven", apeteceu-me postar aqui aquela que considero ser a mais bonita prece, aquela que é conhecida como a oração de S. Francisco de Assis:
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"... Senhor: Faz de mim um instrumento da Tua paz... onde haja ódio, consente que eu semeie amor... perdão onde haja injúria... fé onde haja dúvida... verdade onde haja mentira... esperança onde haja desespero... luz onde haja treva... união onde haja discórdia... alegria onde haja tristeza!... Permite que eu não procure tanto ser consolado quanto consolar... compreendido quanto compreender... amado quanto amar... porque é dando que recebemos... é perdoando que somos perdoados... e é morrendo que nascemos para a eternidade..."

sexta-feira, 8 de setembro de 2006

eu

“…amo desde o momento que quero amar até ao momento em que decido não amar… para amar é preciso querer amar como quem tem frio e quer calor ou como quem está cansado e quer descansar… tão simples quanto isso: é apenas um acto de exercício de um querer… não amamos por amar ou porque fomos aprender a amar como quem vai aprender uma nova disciplina; só se aprende uma nova ciência desde que se queira aprender; é preciso querer aprender; ninguém é obrigado a amar como ninguém é obrigado a não amar ou até mesmo a odiar… para amarmos é preciso que se queira amar: dizer mesmo – eu quero – e sentirmos que esse é um querer simples e sem artifícios… amar é uma entrega absoluta sem qualquer barreira, mesmo que magoe, que fira, que não seja o que pensávamos que seria… amar é uma dádiva e não um receber o que quer que seja, dando-nos para além de nós próprios mesmo que isso signifique perder alguma coisa… amar pode ser a perda de nós mesmos em prol de alguém que precise mais de mim do que eu próprio preciso e pode significar, portanto, dor, lágrima, choro, tristeza, amargura, infelicidade, desespero, quiçá até mesmo desamor… amar não é sorrir e dizer: Que bom, amo!… amar é dizer eu estou aí em ti e não em mim… amar é olhar para mim e sentir que só faço falta a ti e que me sobro a mim próprio… amar é tão simplesmente isso: querer estar naquele que precisa de mim mesmo que isso queira dizer que me perca, que deixo de ser o que sou ou o que gostaria de ser, mesmo que signifique a dor e a perda que tanto abomino e não desejo… para amar basta apenas querer amar… e a lágrima escorre pela minha face e a dor é forte mas, eu quero amar!…”

segunda-feira, 4 de setembro de 2006

escrito

"...Porque te sentas de pernas cruzadas sobre a nudez do teu silêncio? Para te ouvires desejando não ouvir o que não és capaz de pensar? Porque te sentas de costas voltadas à treva se da treva vem a luz que te cega? Para não olhares, para não veres o que sempre desejaste ver? Porque me dizes que sim quando do teu peito sai um gritante não? Para não teres de balbuciar um talvez? Porque pensas que pensas o que não pensas? Para pensares no que eu penso que tu pensas? Não, o melhor é mesmo não pensares. Porque sentes que a vida te foge por entre os dedos se as tuas mãos estão presas e cheias de dúvidas? Porque desejas libertação se o que intimamente queres é estar quieto na bonomia do turbilhão? Porque calas o teu grito se do fundo da tua mansarda revelas a negrura da alma que te compõe o sentir? Porque não mentes se é tão doce mentir? Porque não calcas a doçura do mel? Porque não espezinhas a palavra calada? Porque não escreves o nada que temos para dizer? Que te disse eu que tu já não soubesses? Aprendeste algo mais para além daquilo que já não sabias? Que sabes tu da ignorância que te cerca se a certeza de saber é apenas uma incógnita que nos abala a consciência de nada sabermos, ou apenas de sabermos que nada sabemos? Para que viemos aqui? Para que é que estamos aqui? Para dizermos tudo quando apenas dizemos nada?..."
(republicação)

sexta-feira, 1 de setembro de 2006

amanitas


"... eu sei, eu sei que são venenosos e não dão para se fazer deles uma iguaria mas nem por isso deixam de ser belos e com os quais qualquer um, uma bela pintura, por exemplo, faria... mas fica apenas a sua textura e colorido para vos desejar a todos um fim de semana bem vivido..."